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Maria Goulart, psicóloga clínica

Ansiedade em mulheres: quando a preocupação não dá trégua

A mente que não desliga, o aperto no peito, o cansaço de estar sempre em alerta. Entender a ansiedade é o primeiro passo para que ela deixe de mandar no seu dia.

7 min de leituraPor Maria Goulart, psicóloga

O que é ansiedade (e quando ela passa do ponto)

Ansiedade, por si só, não é doença. É uma reação natural do corpo diante de algo que parece ameaçador ou importante: o coração acelera, a atenção fica mais aguda, o corpo se prepara. Antes de uma entrevista ou de uma conversa difícil, um pouco de ansiedade ajuda a gente a se preparar.

O problema começa quando esse alarme dispara o tempo todo, mesmo sem motivo claro, ou com uma intensidade muito maior do que a situação pede. A preocupação deixa de ser passageira e vira companhia constante. Você deita para dormir e a cabeça continua trabalhando. Acorda e já está pensando no que pode dar errado.

“Ansiedade não é frescura nem fraqueza. É um alarme que ficou sensível demais, e que pode voltar a funcionar a seu favor.”

Quando a ansiedade começa a atrapalhar o sono, o trabalho, os relacionamentos ou a vontade de sair de casa, é sinal de que vale olhar para ela com cuidado.

Uma forma simples de pensar a diferença: a ansiedade esperada tem começo, meio e fim. Ela aparece diante de algo concreto e vai embora quando a situação passa. A ansiedade que passou do ponto fica. Ela se espalha para áreas da vida que antes eram tranquilas, faz você evitar lugares e pessoas e transforma pequenas decisões em grandes batalhas internas.

Por que mulheres são mais afetadas

O Brasil tem uma das maiores taxas de ansiedade do mundo. Pelas estimativas da Organização Mundial da Saúde, cerca de 9,3% da população brasileira convivia com transtornos de ansiedade, a maior proporção entre os países avaliados.

Entre as mulheres, os números são ainda mais altos. No inquérito Covitel 2023, feito pela Vital Strategies e pela Universidade Federal de Pelotas com 9 mil adultos, 26,8% dos brasileiros relataram já ter recebido diagnóstico de ansiedade. Entre as mulheres, foram 34,2%: mais de uma em cada três.

Não existe uma causa única para essa diferença. Mas alguns fatores aparecem com frequência nas histórias de quem chega à terapia:

  • Sobrecarga. Trabalho, casa, filhos, pais, contas: muitas mulheres carregam a gestão de tudo, inclusive a parte invisível de lembrar e planejar.
  • Dupla jornada. O dia não acaba quando o expediente termina, e o descanso vira mais uma tarefa adiada.
  • Cobrança. A expectativa de ser boa em tudo, sempre disponível e sem reclamar.

Nada disso significa que a ansiedade é “culpa” sua. Significa que ela costuma ter raízes no modo como a vida está organizada, e que dá para mexer nessas raízes.

Sinais no corpo e na mente

A ansiedade aparece tanto nos pensamentos quanto no corpo. Alguns sinais comuns:

  • Sinto-me nervosa ou tensa sem motivo claro.
  • Tenho dificuldade de parar de me preocupar.
  • Sinto aperto no peito, coração acelerado ou falta de ar.
  • Minha mente “não desliga”, mesmo quando quero descansar.
  • Tenho dificuldade para pegar no sono ou acordo preocupada.
  • Evito situações por medo de passar mal ou errar.
  • Cobro-me de forma excessiva.
  • Sinto-me cansada de estar sempre em alerta.

Muitas mulheres convivem com esses sinais por tanto tempo que passam a achar que são “o jeito delas”. Mas viver em alerta cansa, e esse cansaço também é um sinal.

No corpo, a ansiedade pode aparecer de formas que nem sempre a gente liga ao emocional: dor de cabeça frequente, tensão no pescoço e nos ombros, estômago embrulhado, mãos frias, sensação de falta de ar. É importante conversar com um médico para descartar outras causas, e também lembrar que corpo e mente não funcionam separados.

Se você se reconheceu em vários desses pontos, o questionário de reflexão pode ajudar a organizar o que sente. Ele não é um diagnóstico, mas pode ser um bom começo de conversa.

Como a psicoterapia ajuda

A psicoterapia é um espaço para entender de onde vem a sua ansiedade e o que a mantém. Juntas, a gente olha para os pensamentos que disparam o alarme, para as situações que você tem evitado e para a forma como você cuida (ou deixa de cuidar) de si mesma.

  • Entender o ciclo. Perceber o que acontece antes, durante e depois de uma crise de preocupação.
  • Ferramentas práticas. Formas de acalmar o corpo e de responder aos pensamentos ansiosos sem brigar com eles.
  • Limites e prioridades. Rever a carga que você carrega e o que dá para dividir, adiar ou soltar.

Cada pessoa tem o seu tempo. O processo é construído com você, respeitando a sua história. Se você também se identifica com esquecimentos e dificuldade de organização, vale ler sobre TDAH em mulheres: as duas coisas costumam andar juntas.

Um ponto que surpreende muitas pacientes: o objetivo não é nunca mais sentir ansiedade. É fazer com que ela volte a ter o tamanho certo, aparecendo quando faz sentido e indo embora depois. Com o tempo, você aprende a reconhecer os primeiros sinais e a agir antes de a preocupação tomar conta do dia.

E dá para começar do jeito mais simples possível: uma mensagem contando, em poucas palavras, o que você está sentindo. A partir daí, a gente conversa sobre como seria o acompanhamento e se ele faz sentido para você agora.

Quando procurar ajuda imediata

Psicoterapia é um cuidado contínuo, mas não é atendimento de emergência. Se você estiver em crise, com pensamentos de se machucar ou sentindo que não está segura, procure ajuda agora:

  • CVV, 188: apoio emocional gratuito, 24 horas, por telefone ou pelo site cvv.org.br.
  • SAMU, 192: em situações de risco à vida.
  • Ou vá ao pronto-socorro mais próximo.

Pedir ajuda não é fraqueza. É um ato de cuidado.

Perguntas frequentes

Ansiedade tem tratamento?

Tem. A psicoterapia é um dos caminhos mais estudados para a ansiedade. Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico também é indicado, e as duas coisas podem andar juntas.

Preciso de diagnóstico para começar terapia?

Não. Você pode começar a terapia só porque algo está pesando. Entender o que acontece faz parte do processo.

A terapia online funciona para ansiedade?

A psicoterapia online segue as normas do Conselho Federal de Psicologia (Resolução CFP nº 9/2024) e oferece o mesmo cuidado ético do presencial, sem precisar sair de casa.

Quanto custa?

Os valores são combinados na primeira conversa, pelo WhatsApp.

Vamos conversar?

O primeiro passo pode ser só uma mensagem.

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